Artigo: O lugar da escola e a escola no lugar

Consultor pedagógico do Anglo opina sobre a proposta de redação da Fuvest 2018, que teve como tema os limites para a arte

*Por Renan Garcia Miranda

No domingo, 07/01/2018, a prova de Redação do vestibular da Fuvest trouxe o tema Devem existir limites para a arte? A partir de uma coletânea que abordava algumas polêmicas recentes envolvendo exposições de artes, a banca examinadora solicitava que o candidato à USP expusesse sua opinião sobre o assunto. A coletânea de textos que amparava a discussão trouxe elementos que permitiriam ao candidato defender limites à arte ou a ausência de controles sobre os artistas e sua produção.

O assunto alimentou debates nas redes sociais, antes e depois de ser tema do exame de redação. E um dos lugares que a escola ocupa nesse cenário é o de abrigar as controvérsias da sociedade contemporânea. Sejam elas científicas, políticas, religiosas, artísticas ou econômicas. O debate, o contraditório e até mesmo a desavença são importantes ferramentas de desenvolvimento intelectual e de aprendizado sobre o convívio com as diversidades.

A escola não é um espaço monocromático no qual imperam as opiniões dos professores e de sua direção pedagógica. Os argumentos dos educadores vão fornecendo referências importantes para o posicionamento dos estudantes, mas o espaço escolar é uma espiral de vozes em que tonalidades diferentes de opiniões vão surgindo a todo instante, em que não se desprezam as vozes das gerações que recebemos para educar.

A escola tampouco é um monastério científico que abriga aqueles que querem se refugiar das tensões sociais. Em qualquer lugar em que ela esteja instalada, do interior da Amazônia aos pampas gaúchos, a escola é uma instituição aberta às características da sociedade que a constitui.

O que o tema da Fuvest nos diz é que devemos continuar a construir um projeto de educação democrática que não censure assuntos a priori por suscitarem paixões, mas que estabeleça critérios de produção intelectual para lidar com a realidade material e cultural que nos cerca. Ao escolher uma polêmica complexa e reveladora de diferentes posturas da sociedade contemporânea brasileira, a Fuvest aponta um caminho inequívoco para a solução de embates sociais como este: o da análise, do posicionamento crítico, fundamentado em argumentação consistente e coerente, ou seja, do debate aberto, responsável e pluralista, como o que queremos em nossas escolas.

*Renan Garcia Miranda é consultor pedagógico do Anglo

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