Entrevista: “Precisamos incentivar cada vez mais a cultura do estudo”

Diretor Paulo Moraes completa 30 anos de Anglo e fala sobre a necessidade da maior participação das famílias no dia a dia das escolas


Setembro de 1989. Enquanto a geopolítica efervescia com a iminente queda do Muro de Berlim, que aconteceria em semanas, culminando posteriormente com o fim da Guerra Fria, o Brasil seguia a euforia de novos tempos, prestes a eleger um novo presidente, que prometia acabar com marajás e impulsionar a economia. Na Educação, uma nova perspectiva de cenário prometia mudar completamente o país de patamar. Destaque na Constituição de 1988, a área, por lei, deveria ser universalizada para a erradicação do analfabetismo. Em até dez anos.

Foi nesse contexto e período que o geógrafo formado pela PUC-SP Paulo Moraes, que acabara de completar 6 anos de magistério, iniciava sua trajetória no Anglo. Professor de geografia em redes particulares, já acumulava a experiência de lecionar também para jovens da Febem (hoje Fundação Casa), autarquia do Governo de SP responsável por aplicar medidas socioeducativas a menores infratores.

Da contratação como professor pelo Anglo, se seguiu uma grande trajetória na instituição, assumindo posteriormente funções como supervisor de disciplina, coordenador de diferentes unidades pré-vestibular, direção do curso, além de autoria dos materiais. Todas elas, fundamentais para alçá-lo à direção geral do Sistema Anglo de Ensino, desde 2017.

Paralelamente ao trabalho no Anglo, nesses 30 anos Paulo Moraes deu sequência a uma robusta carreira acadêmica, com um mestrado e um doutorado pela USP no campo da geografia física. Teve seu nome também intimamente ligado à PUC-SP, onde lecionou por 27 anos. Foi eleito membro de uma das principais organizações internacionais da área de geografia, a Royal Geographical Society. Em 2009, fez parte da Conferência das Nações Unidas sobre mudanças climáticas, assunto cada vez mais relevante e debatido nos dias de hoje.

De 1989 para cá, muitas das expectativas no contexto mundial e nacional não se concretizaram, mas muita coisa mudou para melhor. Com o surgimento de novas tecnologias, a popularização da internet, tudo se transformou e ainda se transforma. A forma como viajamos, como nos entretemos, como trabalhamos. Com a educação não foi diferente. Na entrevista abaixo, Moraes fala sobre as transformações de que participou e sobre as perspectivas para o futuro.

– Nos últimos 30 anos, o que avançou na educação e o que precisa avançar ainda mais?

R.: As técnicas e as salas de aula passaram por uma verdadeira revolução, assim como os livros didáticos. Oferecemos novas metodologias, tecnologias disruptivas, salas virtuais, tudo para proporcionar a experiência mais significativa possível para o estudo e o aprendizado. Mas mesmo com o passar do tempo, o ato de estudar ainda prevalece como a principal forma de aprendizagem. Todas as soluções que criamos e adaptamos para a realidade do século XXI só serão efetivas, de fato, se o estudante entender que, no final do dia, ele tem que estudar. Precisamos incentivar cada vez mais a cultura do estudo.

– O estudante de hoje tem mais dificuldade em aprender?

R.: O aluno tem vontade de aprender, mas tem dificuldade para se motivar a estudar. Esse é um grande problema. Temos um mundo que, se por um lado é cada vez mais dinâmico e diverso, por outro, oferece possibilidades que podem ser dispersivas, fazendo com que o estudante desvie seu foco com facilidade. Precisamos mudar essa forma de pensar e incentivá-los a valorizar o ato de buscar o conhecimento com garra e determinação.

– Se as ferramentas já estão disponíveis, então o que falta para o jovem se envolver mais com o estudo?

R.: O importante é valorizar a cultura do conhecimento. Precisamos incentivar a formação dos jovens com bases sólidas, visão crítica, respeitando a diversidade, para que seja um cidadão pleno no Séc. XXI. Ficar alheio a essa realidade é se colocar à margem da vivência de mundo. A evolução das ferramentas para a educação foi muito rápida nos últimos 30 anos. Tudo foi feito pensando em atrair o jovem para o estudo, mas ainda carecemos de referenciais. O maior desafio que teremos nos próximos anos passa por essa virada de processo.

– Por outro lado, o mundo exige muito mais do aluno hoje do que há 30 anos…

R.: De fato. É como um esporte de alta performance, por exemplo, um nadador que vai competir nas Olimpíadas. Se, há 30 anos, um atleta fazia um percurso em um minuto, hoje, o mesmo trajeto agora é feito em 30 segundos por causa de novas técnicas de treinamento, roupas mais modernas, que diminuem o atrito com a água. Foi mais fácil alcançar essa recorde do que hoje é para bater uma meta de 29 segundos. Então você dá ferramentas e requisitos para que o nadador consiga fazer isso, mas ele tem que se dedicar, fazer o básico, que é nadar. O mesmo pode se dizer do aluno: ele precisa estudar para ter um rendimento melhor.

– Qual é o papel das famílias nessa formação?

R.: Esse é outro grande desafio. A mudança cultural e a valorização dos estudos irá acontecer, de fato, se a família estiver envolvida diretamente na educação, ainda que os pais estejam trabalhando muito mais do que há 30 anos. A rotina está mais desgastante, o mercado exige muito do trabalhador. Mas os pais e responsáveis precisam participar das atividades junto aos estudantes, valorizar o professor e estimular o engajamento do filho no processo de aprendizagem. Tudo isso, é claro, com a consciência de que todo estudante passa por altos e baixos, por momentos de conquistas e por outros que podem ser melhorados com estímulo e incentivo.

– E o professor, como pode se adaptar à nova geração alpha, de crianças nascidas em um mundo totalmente digital?

R.: Se você analisa o professor que atuou na década de 1990, ele era analógico. O professor de hoje, mais novo, é digital. Em 20 anos podemos ter uma outra realidade. O profissional de hoje deve se capacitar para conseguir se adaptar às mudanças de um futuro incerto. Ele deve saber como lidar com estudantes que irão atuar no mercado de trabalho em profissões que muitas vezes ainda não existem. Nos últimos 30 anos, nossas escolas parceiras foram exemplos de trabalho intenso na formação de professores. E vamos continuar dando todo o suporte para que isso continue também pelos próximos anos.

– Por que você decidiu ser professor?

R.: Sempre tive um fascínio pela educação. Uma antiga professora, que posteriormente virou minha mentora profissional no início da minha carreira, me dizia que o professor constrói pessoas. E quem constrói o futuro são as pessoas. Moral da história: nós construímos o futuro. Para deixar o mundo melhor do que encontramos, devemos formar pessoas para isso. O educador é o responsável por essa missão dentro da sociedade.

– Qual o papel do Anglo na educação brasileira?

R.: Quando cheguei, o Anglo era um curso pré-vestibular, com uma pequena base de escolas parceiras. Nesses 30 anos, ele se transformou em um dos maiores sistemas educacionais do país, com mais de 800 escolas e mais de 310 mil alunos. Essa abrangência é mais uma prova da força do leão e esse quadro nos dá uma responsabilidade social muito grande na formação dessas crianças e adolescentes. A história do Anglo nos dá autoridade para falar sobre educação: estamos a cada dia nos transformando, participando do processo de construção da educação brasileira, não só como sistema, mas como uma plataforma de soluções educacionais para escolas.

– O ideal que você tinha quando entrou no Anglo ainda permanece?

R.: Sim, certamente. Creio que todos nós, professores, temos um ideal muito nobre, e instituições como o Anglo também têm. Esse ideal passa pela essa construção de um mundo melhor, fazendo com que as pessoas sejam melhores. Como professor, fazendo parte da história de uma instituição de vanguarda, formada essencialmente por professores, vemos na educação a solução para os problemas do mundo.

– Quais suas expectativas para os próximos 30 anos?

R.: Nesses 30 anos de Anglo, eu presenciei a transformação da educação brasileira. Os sistemas de ensino evoluíram, o Enem trouxe uma nova perspectiva de avaliação, os educadores mudaram, assim como as políticas educacionais precisaram ser readaptadas. O Anglo participou ativamente dessas transformações e não usou a tradição como âncora, mas como motor de propulsão para o futuro. Prever os próximos 30 anos não é tarefa fácil num mundo extremamente dinâmico, mas pode ter certeza de que continuaremos participando ativamente do processo de construção de uma educação e um mundo cada vez melhor.

 

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